A HISTÓRIA DE UMA REVISTA QUE NASCEU EM ANDIRÁ - CREDIBILIDADE.
No início dos anos 2000, cheguei a Andirá, no Norte Pioneiro do Paraná, em um período muito particular da minha vida.
Eu enfrentava uma depressão e procurava, de alguma maneira, mudar de ambiente, trabalhar e reconstruir meus caminhos.
Andirá acabou fazendo muito mais por mim do que eu poderia imaginar.
Fui muito bem recebido pela cidade e por pessoas que tiveram importância naquele começo. Entre elas estavam o Futrica, figura muito conhecida em Andirá e hoje já falecido; Sérgio, do Fotótimo; e Francisco, o Chico da Gráfica Godoy.
Foram pessoas que me deram oportunidades e aquele primeiro impulso necessário para que meu trabalho começasse a ser conhecido.
Aos poucos, fui entrando no comércio, conhecendo empresários, profissionais, famílias e personagens da cidade. Passei a trabalhar com publicidade e comunicação e, desse contato diário com Andirá, surgiram projetos que acabariam marcando aquela fase da minha vida.
Entre eles estavam uma lista telefônica do Norte Pioneiro do Paraná e, posteriormente, uma ideia ainda mais especial:
A REVISTA CREDIBILIDADE.
A primeira edição da Revista Credibilidade nasceu em março de 2004.
Era uma publicação voltada para Andirá e sua gente.
Suas páginas reuniam empresas, profissionais, histórias, fotografias, saúde, comportamento, personagens conhecidos da população, informações da cidade e publicidade do comércio local.
Naquela primeira edição, a própria pesquisa apresentada pela revista registrava a consulta a 1.314 pessoas para a indicação de empresas e personalidades que se destacavam.
A proposta era simples, mas ambiciosa:
registrar quem fazia parte da vida daquela cidade.
A primeira edição teve uma característica que, para mim, tornou-se inesquecível.
Na capa estava uma bebê.
Ana Maria.
Minha filha.
Ela foi a primeira "Menina da Capa" da história da Revista Credibilidade.
Era ainda uma bebezinha, e aquela imagem acabou atravessando mais de duas décadas.
Talvez naquele momento eu estivesse preocupado com fotografia, composição, impressão e com a revista chegando às mãos das pessoas.
Hoje, quando olho novamente para aquela capa, vejo outra coisa.
Vejo minha filha ainda bebê eternizada na primeira edição de uma criação que marcou minha passagem por Andirá.
Mas a história da Revista Credibilidade guarda também um daqueles acontecimentos que o tempo não consegue apagar.
E tudo começou com uma palavra.
CREDILIDADE.
Na capa da primeira edição, logo abaixo do nome CREDIBILIDADE, uma das chamadas trazia a expressão:
"Empresas de credilidade".
Antes da impressão, a revista havia passado por revisões.
Foram feitos bonecos, correções e novas conferências. Professores de escolas diferentes haviam participado das revisões do material.
Mesmo assim, aquela palavra passou.
E cinco mil exemplares foram impressos e distribuídos pela cidade.
Eu ainda não havia percebido.
Pouco depois do lançamento, fui convidado para participar de um programa de rádio e falar sobre a nova revista.
Era um momento importante.
A primeira Revista Credibilidade estava nas ruas e eu estava diante dos microfones apresentando aquele novo trabalho para Andirá.
Durante o programa, ouvintes começaram a telefonar.
Eu respondia às perguntas e falava sobre a revista.
Até que entrou a ligação de uma professora.
Ela havia encontrado a palavra na capa.
E não fez simplesmente uma correção.
Diante dos ouvintes, disse que era vergonhoso alguém fazer a primeira revista da cidade e cometer um erro tão grotesco, tão feio e tão visível justamente na capa.
Eu não tinha resposta.
Não sabia sequer que aquela palavra estava impressa daquela maneira.
Depois de tantas revisões e com cinco mil revistas já espalhadas pela cidade, descobri o problema ao vivo, pelo rádio.
Saí dali de cabeça baixa.
Voltei para o escritório profundamente abatido.
Foi então que apareceu um personagem que se tornaria fundamental nesta história.
Seu nome era Henrique Lopes.
Henrique já era um senhor de idade e possuía uma grande bagagem intelectual e acadêmica. Sua própria história havia sido publicada na Revista Credibilidade.
E havia uma coincidência extraordinária ligando nossos caminhos.
Uma lista telefônica que eu havia produzido anteriormente tinha participado da história que o levara até Andirá.
Essa história era tão interessante que ganhou uma página da revista com um título que praticamente a resumia:
"Uma lista telefônica mudou a direção desta família."
Naquele dia, Henrique chegou ao escritório e percebeu que eu não estava bem.
Perguntou:
— Tudo bem, Sérgio?
Respondi que não.
Contei o que havia acontecido.
Na verdade, ele já tinha ouvido a entrevista pelo rádio.
Então pediu:
— Deixa eu olhar a revista.
Entreguei um exemplar.
Henrique observou.
Pegou a revista e foi embora.
Não tentou me consolar com frases prontas.
Não disse simplesmente que aquilo não tinha importância.
Ele levou o problema consigo.
Cerca de duas horas depois, voltou.
E entrou no escritório com uma resposta.
— Sérgio, fica contente. Você não errou.
Aquilo parecia impossível.
Mostrei novamente:
— Como não errei? Está aqui: "credilidade".
Foi então que Henrique me apresentou uma palavra que eu jamais esqueceria:
SÍNCOPE.
Ele me explicou que a síncope é um fenômeno da língua em que ocorre a supressão de um som ou de parte de uma palavra em seu interior, sem necessariamente impedir que seu sentido seja compreendido.
E me mostrou que havia uma maneira linguisticamente defensável de interpretar aquilo que todos estavam simplesmente chamando de erro.
Naquele momento, alguma coisa mudou.
Poucas horas antes eu havia saído da rádio constrangido, sem resposta e de cabeça baixa.
Agora eu tinha conhecimento.
Eu tinha uma explicação.
Eu tinha munição.
E, principalmente, tinha recuperado minha confiança.
No dia seguinte, voltei à rádio.
Procurei Rubão e disse:
— Rubão, pode me entrevistar novamente. Eu quero continuar aquela conversa.
Ele quis saber o que havia acontecido.
Respondi:
— Você vai escutar.
Entrei novamente no ar.
Comecei agradecendo às pessoas de Andirá pela maneira como haviam recebido a revista.
E então retomei o assunto do dia anterior.
Expliquei que, quando fui questionado, não havia respondido porque acreditava que aquela professora estivesse cheia de razão.
Depois contei o que havia descoberto.
Falei sobre a síncope.
Expliquei o fenômeno.
E então fiz uma observação que mudou completamente aquela história.
Disse que gostaria que alguém tivesse olhado para aquela palavra e, em vez de simplesmente apontar um erro, tivesse percebido a possibilidade linguística e dito:
"Sérgio, você foi genial. Você utilizou uma síncope."
Mas ninguém havia feito isso.
No dia anterior, os telefones haviam tocado.
Houve questionamento.
Houve crítica.
Naquela manhã, depois da explicação, esperei.
Ninguém ligou.
O telefone ficou em silêncio.
A Revista Credibilidade continuou circulando.
E aquela primeira edição passou a carregar algo que nenhuma reimpressão poderia produzir:
UMA HISTÓRIA.
Alguns dias depois, entrei em uma livraria da cidade.
O rapaz que trabalhava ali me conhecia.
Assim como praticamente todo mundo conhecia também a professora que havia feito aquela crítica pelo rádio.
Quando cheguei, ele me avisou:
— Sérgio, ela está aí dentro.
Era ela.
A professora.
Ela ouviu minha voz.
E quando percebeu que eu havia entrado, foi para o fundo do estabelecimento.
Escondeu-se.
Eu não fui atrás.
Não precisava.
Não havia mais nada para discutir.
Saí daquela livraria sorrindo e feliz.
Enquanto alguém continuava escondido lá dentro.
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